2019-06-05

TAPETÃO NO GRUPO ESPECIAL DO RJ


Não é novidade o desrespeito ao Regulamento do Desfile na cidade do Rio de Janeiro que conta com cerca de uma dezena de casos emblemáticos e que tiveram início em 1960.
Fábio Ponso e Gustavo Villela em março de 2018 trataram a virada de mesa, apoiada pelo Prefeito Crivella nos seguintes termos.
"Vale o que está escrito", reza a máxima do jogo do bicho. Mas no carnaval do Rio, que desde o lendário Natal, nos anos 1960, conta com o protagonismo de bicheiros como patronos ou dirigentes de escolas de samba, a história nem sempre foi assim. Justamente no período em que os contraventores - quase todos já condenados e presos em algum momento - estiveram à frente da cúpula da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), as quebras de regulamento e "viradas de mesa" se deram de forma mais intensa, gerando polêmica e colocando em xeque a credibilidade do concurso entre as agremiações.(1)grifo nosso

CASTANHEIRA: COERÊNCIA E CREDIBILIDADE
A reportagem ressaltava a postura de Jorge Castanheira, presidente da LIESA que era contra a virada de mesa. Ao justificar a manutenção da Grande Rio e da Império Serrano para o carnaval de 2019 na categoria principal, já advertia:
— Atendemos a um pedido do poder público. Tomamos essa decisão, mas que seja a última, de modificar o regulamento. Porque isso é muito desgastante para as escolas.
Parece que ninguém deu bola ao administrador que melhorou – e muito! – a imagem da Liga que teve desde a sua fundação o comando de contraventores.
A cronista DANIELA NAME em artigo intitulado O CARNAVAL DO DERRAME POLÍTICO(3) afirma que “ Descontada a exceção do Império Serrano, não existe, no carnaval carioca, uma escola de samba que não esteja comprometida, em maior ou menor grau, com dinheiro e atitudes ilícitas. Se a Beija Flor representa o poder miliciano da família de Anísio Abraão David em Nilópolis, Baixada Fluminense, a Tuiuti tem como seu patrono o contraventor Thor, que tomou o poder na região do morro da Mangueira e na própria agremiação através de métodos nada democráticos e pacíficos”.
Mais adiante a autora da crônica afirma que “NÃO EXISTE CARNAVAL INOCENTE”, citando a Imperatriz Leopoldinense, apadrinhada pelo bicheiro Luizinho Drummond. Sua opinião coincide com a nossa, ou seja: “NÃO EXISTE ESQUERDA E DIREITA NO MUNDO DA LIESA. Mas existem as contradições da avenida, e, se os métodos de condução política nas escolas podem e devem ser questionados, o resultado estético e mobilizador dos desfiles, que são manifestações culturais e obras de arte, não pode ser desabonado pelo comando nem sempre lícito das agremiações”.
Em fevereiro de 2017 o repórter Guilherme Ayupp do site O CARNAVALESCO fez uma entrevista com o administrador, na qual perguntava: QUAL É O LIMITE DO JORGE CASTANHEIRA?
“Outro dia nasceu um sobrinho neto meu e ainda não o conheci. Só converso pelo telefone com meus familiares, ainda mais nessa época. Não consigo estar com eles. O único dia que estive com a família foi na noite de Natal. Você faz uma série de renúncias, mas as pessoas compreendem. Temos uma equipe pequena, pois não estamos estrutura financeira para aumentar o quadro de funcionários. O Elmo, Edson Marcos e demais diretores também vivem essa situação. É uma condição de abnegação em prol do carnaval. As escolas se esmeram no espetáculo e nós nos dedicamos ao carnaval, na gestão série e correta”. (2)
A LIESA E O COMPROMISSO FIRMADO POR CASTANHEIRA COM O MP
O professor e jornalista Anderson Baltar em sua coluna de carnaval no site UOL bem descreve a situação da LIESA, que em suas palavras é composta  atualmente por dois grupos dentro de um: o das escolas que não podem cair e das que podem cair”. Salienta que “o hostil prefeito Marcelo Crivella terá ainda mais motivos para, sorrindo de orelha a orelha, destilar seu festival de hipocrisia e desrespeito com um patrimônio cultural carioca. E desta vez, até com certa razão”. Ao concluir sua coluna, dispara: “Uma coisa é fato: a Liesa, como instituição inabalável, morreu na noite do dia 3 de junho”(4)
O acordo de ajustamento de conduta, proposto pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) prevê o pagamento de multa de R$ 750 mil para o caso de uma terceira virada de mesa da Liesa, que vá contra os regulamentos e não permita o rebaixamento de uma escola. No documento consta a assinatura do ex-presidente Jorge Castanheira que renunciou ao cargo após a votação da noite de segunda-feira.
Em breve deve acontecer nova eleição para a Direção da Liga, cuja composição até o início desse mês era a seguinte(quadro ao lado).
Aos jornalistas Bruno Alfano, João Paulo Saconi e Felipe Grinberg em 03/06/2019, disse Castanheira sobre a manobra:
— Os itens de pauta eram a aprovação das contas de 2019 e do orçamento para o ano que vem. Foi colocada na pauta a permanência da Imperatriz para o ano que vem, alegando as dificuldades gerais do Grupo de Acesso. Eu não concordo com essa posição. A diretoria da Liga também está se desfazendo e vou tomar as medidas para a transição. Fiz um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com o Ministério Público e tenho que manter a palavra. Tenho compromisso com o público e com os contratos que fizemos.(5)
Na mesma matéria os jornalistas acreditam que “A virada de mesa põe em xeque a credibilidade e as finanças do espetáculo das escolas de samba. Isso porque, conforme lembra Castanheira, elas assinaram um compromisso com o Ministério Público de que manteriam o resultado, sob pena de R$ 750 mil. Além disso, o orçamento para o ano que vem já foi questionado pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB), que espera não liberar subvenção para as agremiações”. Ainda na matéria apresentam a manifestação de Gabriel David, dirigente da Beija-Flor e filho do patrono Anísio Abrahão David, onde diz que a manobra realizada pelas 8 Escolas de Samba signatárias do pedido “Foi a pior decisão a ser tomada neste momento. O carnaval vem precisando de transparência e de modelos de gestão melhores. Nem eu nem meu pai fomos favoráveis a isso e agora vamos sentar para conversar com as outras escolas que não concordaram e ver o que pode ser feito pelo futuro do carnaval”
A princípio, Castanheira deve ser sucedido pelo vice, Zacarias Siqueira de Oliveira. A expectativa nos bastidores é que outros integrantes da diretoria, que é formada por sete ocupantes dos postos principais, também deixem a liga nos próximos dias.

QUEM PAGA A CONTA? QUEM É BENEFICIÁRIO?
A divisão interna na LIESA culmina com a violação ao compromisso firmado com o Ministério Público que pode trazer consequências graves para a Liga. o MPRJ vai cobrar a multa de R$ 750 mil previsto no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado com a liga em junho último no qual a LIESA se comprometia a respeitar o regulamento que, neste ano, previu o rebaixamento de duas agremiações e que, em contrapartida, o MPERJ arquivaria o inquérito civil que cuidava da virada de mesa daquele ano (2018).
O Promotor de Justiça Rodrigo Terra já disse que a validade da decisão interna será questionada na Justiça. O MP ainda manifestou-se no sentido de que “qualquer folião que tenha assistido aos desfiles na Marquês de Sapucaí pode recorrer à Justiça para pedir uma indenização por danos morais”. Disse aos jornalistas João Paulo Saconi e Renan Rodrigues de O GLOBO que:  
Qualquer pessoa que tenha comprado o ingresso para assistir o carnaval pelas regras do regulamento pode requerer indenização pelo dano moral que essa virada de mesa provoca em cada um. Não está sendo correspondida a expectativa legítima do consumidor de que haja competição. Isso acaba comprometendo a própria ideia de que é uma disputa. Se os resultados apurados podem não ter o efeito previsto no papel, então há um ato ilícito que causa um dano moral. (6)

ENTRE O SILÊNCIO E A INDIGNAÇÃO
Assim como a LIESA, que preferiu não manifestar-se sobre a votação, as oito escolas que votaram a favor da virada de mesa (Mocidade, Unidos da Tijuca, União da Ilha, Salgueiro, Grande Rio, Tuiuti e São Clemente) optaram  por também não comentar o caso, enquanto algumas das Agremiações que votaram contra a permanência da Imperatriz no Grupo Especial (Mangueira, Vila Isabel, Beija-Flor, Portela e  Viradouro) foram através de redes sociais manifestar indignação e cancelamento de atividades em retaliação ao descumprimento do Regulamento de 2019.



Referências:
 6) https://oglobo.globo.com/rio/carnaval-mp-tentara-anular-reuniao-que-confirmou-virada-de-mesa-manteve-imperatriz-leopoldinense-no-grupo-especial-23716428. Acesso em 04/06/2019

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