Não é novidade o desrespeito ao Regulamento
do Desfile na cidade do Rio de Janeiro que conta com cerca de uma dezena de
casos emblemáticos e que tiveram início em 1960.
Fábio Ponso e Gustavo Villela em março de
2018 trataram a virada de mesa, apoiada pelo Prefeito Crivella nos seguintes
termos.
"Vale o
que está escrito", reza a máxima do jogo do bicho. Mas no carnaval do Rio,
que desde o lendário Natal, nos anos 1960, conta com o protagonismo de
bicheiros como patronos ou dirigentes de escolas de samba, a história nem
sempre foi assim. Justamente no período em que os contraventores - quase todos
já condenados e presos em algum momento - estiveram à frente da cúpula da Liga
Independente das Escolas de Samba (Liesa), as quebras de regulamento e "viradas
de mesa" se deram de forma mais intensa, gerando polêmica e colocando em
xeque a credibilidade do concurso entre as agremiações.(1)grifo nosso
A reportagem ressaltava a postura de Jorge
Castanheira, presidente da LIESA que era contra a virada de mesa. Ao justificar
a manutenção da Grande Rio e da Império Serrano para o carnaval de 2019 na
categoria principal, já advertia:
— Atendemos a um pedido do poder público.
Tomamos essa decisão, mas que seja a última, de modificar o regulamento. Porque
isso é muito desgastante para as escolas.
Parece que ninguém deu bola ao administrador
que melhorou – e muito! – a imagem da Liga que teve desde a sua fundação o
comando de contraventores.
A cronista DANIELA NAME em artigo intitulado O CARNAVAL DO DERRAME POLÍTICO(3) afirma
que “ Descontada a exceção do Império Serrano, não existe, no
carnaval carioca, uma escola de samba que não esteja comprometida, em maior ou
menor grau, com dinheiro e atitudes ilícitas. Se a Beija Flor representa o
poder miliciano da família de Anísio Abraão David em Nilópolis, Baixada
Fluminense, a Tuiuti tem como seu patrono o contraventor Thor, que tomou o
poder na região do morro da Mangueira e na própria agremiação através de
métodos nada democráticos e pacíficos”.
Mais adiante a autora da crônica afirma que
“NÃO EXISTE CARNAVAL INOCENTE”, citando a Imperatriz Leopoldinense, apadrinhada
pelo bicheiro Luizinho Drummond. Sua opinião coincide com a nossa, ou seja:
“NÃO EXISTE ESQUERDA E DIREITA NO MUNDO DA LIESA. Mas existem as contradições
da avenida, e, se os métodos de condução política nas escolas podem e devem ser
questionados, o resultado estético e mobilizador dos desfiles, que são
manifestações culturais e obras de arte, não pode ser desabonado pelo comando
nem sempre lícito das agremiações”.
Em fevereiro de 2017 o repórter Guilherme
Ayupp do site O CARNAVALESCO fez uma entrevista com o administrador, na qual
perguntava: QUAL É O LIMITE DO JORGE CASTANHEIRA?
“Outro dia nasceu um sobrinho neto meu e ainda não o conheci. Só converso pelo telefone com meus familiares, ainda mais nessa época. Não consigo estar com eles. O único dia que estive com a família foi na noite de Natal. Você faz uma série de renúncias, mas as pessoas compreendem. Temos uma equipe pequena, pois não estamos estrutura financeira para aumentar o quadro de funcionários. O Elmo, Edson Marcos e demais diretores também vivem essa situação. É uma condição de abnegação em prol do carnaval. As escolas se esmeram no espetáculo e nós nos dedicamos ao carnaval, na gestão série e correta”. (2)
A LIESA E O COMPROMISSO FIRMADO POR CASTANHEIRA
COM O MP
O professor
e jornalista Anderson Baltar em sua coluna de carnaval no site UOL bem descreve
a situação da LIESA, que em suas palavras é composta atualmente por “dois
grupos dentro de um: o das escolas que não podem cair e das que podem cair”. Salienta
que “o hostil prefeito Marcelo Crivella terá ainda mais motivos para, sorrindo
de orelha a orelha, destilar seu festival de hipocrisia e desrespeito com um
patrimônio cultural carioca. E desta vez, até com certa razão”. Ao concluir sua
coluna, dispara: “Uma coisa é fato: a Liesa, como instituição inabalável,
morreu na noite do dia 3 de junho”(4)
O acordo de ajustamento de conduta,
proposto pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) prevê o
pagamento de multa de R$ 750 mil para o caso de uma terceira virada de mesa da
Liesa, que vá contra os regulamentos e não permita o rebaixamento de uma
escola. No documento consta a assinatura do ex-presidente Jorge Castanheira que
renunciou ao cargo após a votação da noite de segunda-feira.
Aos jornalistas Bruno Alfano, João
Paulo Saconi e Felipe Grinberg em 03/06/2019, disse Castanheira sobre a
manobra:
— Os itens de pauta eram a aprovação das
contas de 2019 e do orçamento para o ano que vem. Foi colocada na pauta a
permanência da Imperatriz para o ano que vem, alegando as dificuldades gerais
do Grupo de Acesso. Eu não concordo com essa posição. A diretoria da Liga
também está se desfazendo e vou tomar as medidas para a transição. Fiz um TAC
(Termo de Ajuste de Conduta) com o Ministério Público e tenho que manter a
palavra. Tenho compromisso com o público e com os contratos que fizemos.(5)
Na mesma matéria os jornalistas acreditam que
“A virada de mesa põe em xeque a credibilidade e as finanças do espetáculo das
escolas de samba. Isso porque, conforme lembra Castanheira, elas assinaram um
compromisso com o Ministério Público de que manteriam o resultado, sob pena de
R$ 750 mil. Além disso, o orçamento para o ano que vem já foi questionado pelo
prefeito Marcelo Crivella (PRB), que espera não liberar subvenção para as
agremiações”. Ainda na matéria apresentam a manifestação de Gabriel David,
dirigente da Beija-Flor e filho do patrono Anísio Abrahão David, onde diz que a
manobra realizada pelas 8 Escolas de Samba signatárias do pedido “Foi a pior
decisão a ser tomada neste momento. O carnaval vem precisando de transparência
e de modelos de gestão melhores. Nem eu nem meu pai fomos favoráveis a isso e
agora vamos sentar para conversar com as outras escolas que não concordaram e
ver o que pode ser feito pelo futuro do carnaval”
A princípio, Castanheira deve ser sucedido
pelo vice, Zacarias Siqueira de Oliveira. A expectativa nos bastidores é que
outros integrantes da diretoria, que é formada por sete ocupantes dos postos
principais, também deixem a liga nos próximos dias.
A divisão interna na LIESA culmina com a
violação ao compromisso firmado com o Ministério Público que pode trazer
consequências graves para a Liga. o MPRJ vai cobrar a multa de R$ 750 mil previsto no Termo de
Ajustamento de Conduta (TAC), assinado com a liga em junho último no qual a
LIESA se comprometia a respeitar o regulamento que, neste ano, previu o
rebaixamento de duas agremiações e que, em contrapartida, o MPERJ arquivaria o
inquérito civil que cuidava da virada de mesa daquele ano (2018).
O Promotor de Justiça Rodrigo Terra já disse
que a validade da decisão interna será questionada na Justiça. O MP ainda
manifestou-se no sentido de que “qualquer folião que tenha assistido aos
desfiles na Marquês de Sapucaí pode recorrer à Justiça para pedir uma
indenização por danos morais”. Disse aos jornalistas João Paulo Saconi e Renan
Rodrigues de O GLOBO que:
Qualquer
pessoa que tenha comprado o ingresso para assistir o carnaval pelas regras do
regulamento pode requerer indenização pelo dano moral que essa virada de mesa
provoca em cada um. Não está sendo correspondida a expectativa legítima do
consumidor de que haja competição. Isso acaba comprometendo a própria ideia de
que é uma disputa. Se os resultados apurados podem não ter o efeito previsto no
papel, então há um ato ilícito que causa um dano moral. (6)
ENTRE O SILÊNCIO
E A INDIGNAÇÃO
Assim como a LIESA, que preferiu não
manifestar-se sobre a votação, as oito escolas que votaram a favor da virada de
mesa (Mocidade, Unidos da Tijuca, União da Ilha, Salgueiro, Grande Rio, Tuiuti
e São Clemente) optaram por também não comentar
o caso, enquanto algumas das Agremiações que votaram contra a permanência da
Imperatriz no Grupo Especial (Mangueira, Vila Isabel, Beija-Flor, Portela e Viradouro) foram através de redes sociais
manifestar indignação e cancelamento de atividades em retaliação ao
descumprimento do Regulamento de 2019.
Referências:
1) http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/tapetao-no-samba-10-casos-de-virada-de-mesa-no-carnaval-do-rio-desde-os-anos-60-22447126: Acesso em 12/03/18
2) http://www.carnavalesco.com.br/noticia/entrevistao-com-jorge-castanheira-cabine-dupla-de-jurados-e-experimental-o-bom-do-desfile-e-o-desafio/39636 Acesso em
20/03/17
4) https://noticias.uol.com.br/carnaval/2019/colunas/anderson-baltar/2019/06/04/terceira-virada-de-mesa-seguida-leva-a-liesa-para-o-fundo-do-poco.htm
Acesso em 04/06/2019
6) https://oglobo.globo.com/rio/carnaval-mp-tentara-anular-reuniao-que-confirmou-virada-de-mesa-manteve-imperatriz-leopoldinense-no-grupo-especial-23716428.
Acesso
em 04/06/2019

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