2018-01-06

DESCULPE-ME PELA INJUSTIÇA, MESTRE! – Texto de R.Morgado

Texto publicado originariamente em 26/07/16 em outro Blog

            Recentemente (22/07/16) fizemos longos e detalhados elogios a análise dos comentaristas do site SRZD quando abordaram a SINOPSE DO ENREDO da ACADÊMICOS DO SOSSEGO. Porém percebemos que além de nós os competentes comentaristas Luiz Fernando Reis, Rachel Valença e Hélio Ricardo Rainho também deixaram de observar um relevante dado acerca da sinopse apresentada pelo carnavalesco Marcio Puluker.
            Referimo-nos a autoria do texto e o trabalho de pesquisa para a apresentação da mesma.
            O texto que tanto elogios recebeu na verdade é de autoria de JULIO CESAR FARIAS, pesquisador e escritor, autor de inúmeros livros sobre carnaval. Entre eles, destacam-se os que tratam de temas que são QUESITOS DOS JURADOS (Bateria, Comissão de Frente, Harmonia, etc.). Dentre estes encontra-se um que revela-se uma verdadeira obra-prima: O ENREDO DE ESCOLA DE SAMBA

            É nessa obra que destaca que “A consequente profissionalização da produção do Carnaval ao longo dos anos e a criação das verdadeiras "Fábricas de Carnaval" aumentam ainda mais a preocupação das Escolas de Samba coma transmissão da mensagem contida no enredo, visto que, em ultima análise, o desfile será sempre um concurso, em que vencerá, via de regra, a que melhor apresentar o enredo proposto e, sobretudo, a que melhor se apresentar em desfile.”(pp.90-91)
            Enfatiza ainda que:

 “As Escolas de Samba possuem uma estratégia de planejamento para a elaboração do seu Carnaval. Considerando as diferenças estruturais internas da agremiação e também aquelas que não utilizam projetos totalmente ordenados de ação, em geral, como carnavalesco definido ou dupla de carnavalescos/ comissão de Carnaval formada, seguem aproximadamente o seguinte caminho para a organização e a disponibilização das informações entre os diferentes setores:

1ª. Etapa
1- Escolha do enredo
2- Pesquisa do enredo
3- Apresentação a Diretoria
4- Entrega da sinopse aos compositores
5- Elaboração do Organograma de Desfile
6- Desenho dos figurinos
7- Confecção dos protótipos
8- Reunião com os presidentes de ala
9- Projeto dos carros alegóricos

2ª. Etapa
1- Cortes de sambas nas fitas e CDs
2- Apresentação dos sambas na quadra
3- Escolha do samba-enredo
4- Reunião como intérprete e os compositores do samba campeão
5- Gravação do samba campeão”

            O autor passa a tratar dos itens da primeira etapa, um a um, esclarecendo que estes estão diretamente relacionados a constituição plástica do enredo.
            No ponto sobre A ESCOLHA DO ENREDO, os abalizados depoimentos de bambas como o jornalista Haroldo Costa, Elmo José dos Santos, (Diretor de Carnaval da LIESA), Max Lopes e da carnavalesca Lilian Rabelo abordam, cada uma sua maneira, as múltiplas habilidades e funções desempenhadas pelo carnavalesco, que precisa ter um vasto conhecimento em todas as áreas para exercer bem seu papel na execução do carnaval. Farias reconhece que “A escolha do enredo vem antes de qualquer ação dentro da Escola de Samba”. Lilian ressalta ainda que “Hoje não basta só saber escrever um enredo e desenhar direitinho, por isso as equipes estão voltando.”(p.93)
            O tópico seguinte, A PESQUISA DO ENREDO, merece transcrição literal, estando às fls.94-96 da referida obra, onde se lê:
             
1.5.2 - A Pesquisa do Enredo
            Escolhido o enredo, segue a fase da pesquisa do tema. Convém lembrar que o terna do enredo também pode ser sugestão do pesquisador, bem como do carnavalesco ou da Diretoria da Escola.
            Hoje muitos carnavalescos buscam parcerias para realizar a pesquisa do enredo e também para a elaboração da sinopse. Como exemplo, citamos o aclamado desfile da Unidos da Tijuca, em 2004, cujo complexo enredo O sonho da criação e a criação do sonho: a arte da ciência no tempo do impossível,de cunho cientifico, fez com que o carnavalesco Paulo Barros buscasse parceria inédita com o Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da UFRJ, a Casa da Ciência, para as pesquisas e o desenvolvimento do enredo.
            E, em 2006, a mesma Escola firmou convênio com o Núcleo de Estudos Carnavalescos do Projeto Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ para defender o enredo De lambida em lambida, a Tijuca dá um click na Avenida, sobre a fotografia.
            A propósito, o julgador e palestrante Clecio Quesada enfatizou a importância dos pesquisadores e das parcerias na elaboração e desenvolvimento do enredo:

( ... ) algumas escolas se tem aventurado por enredos de teor abstrato e dissertativo na persecução de seu objetivo de campeonato. De qualquer modo, tematicamente motivados pelo patrocínio ou de espontânea criatividade artística, o fato é que, na última década, os enredos das escolas tem sido realizados a partir de verdadeiros projetos culturais elaborados por pesquisadores, em alguns casos até mesmo egressos ou ligados a academia. Disto tem resultado sem dúvida uma produção de indiscutível validade cultural (... )

            Alex Varela, historiador e pesquisador do enredo Soy loco por ti America: a Vila canta a latinidade, da Vila Isabel, em 2006, em entrevista para este ensaio, explicou que o pesquisador, dependendo da agremiação, pode ser o próprio carnavalesco. E que, na pesquisa do enredo, utilizam-se de referências bibliográficas a eletrônicas, isto é, consultam o tema em livros diversos e, atualmente, em páginas da Internet.
            Nessas fontes de pesquisa, procura-se extrair o máximo de informações sobre o enredo e, principalmente, material iconográfico (fotos, gravuras, gráficos, etc.), para fundamentar o tema e suas possibilidades visuais para desfile.
            Quanto a realização plástica do enredo, a carnavalesca Lilian Rabelo critica pessoas oportunistas que escrevem enredos visando patrocínio, na tentativa de obterem lucros no carnaval:

O enredo é a pedra fundamental do projeto plástico do carnaval. Muita gente acha que é só saber escrever para criar um enredo, por isso, oportunistas se apresentam como criadores de enredo para captarem recursos em cima dos artistas e depois os carnavalescos é quem tem que se desdobrar para tornar aquilo inteligível. Qualquer tema pode virar enredo, mas não d qualquer enredo que vira um bom carnaval. (Site Papo de Samba, coluna ((Re) Pensando Carnaval)

            Com o material de pesquisa reunido, monta-se a sinopse (o resumo do enredo) para apresentar o enredo aos compositores e a imprensa. A partir do histórico do enredo, com sua respectiva justificativa, são montados os setores e o roteiro do desfile. Finalmente, é feito o preenchimento do livro Abre-Alas para os julgadores, contendo a ficha técnica do enredo, a bibliografia utilizada, histórico e justificativa do enredo, as descrições das fantasias e das alegorias que a Escola de Samba apresentará em seu desfile, o samba-enredo e as fichas técnicas contendo as principais informações sobre a bateria, a harmonia, a comissão de frente e os casais de mestre-sala e porta-bandeira.
(...)

            Como vimos, o Escritor, pesquisador e autor do texto da sinopse e responsável pela pesquisa sobre o enredo definido pela Acadêmicos do Sossego não foi lembrado em nossas abordagens em virtude do vídeo postado pelo SRZD. Pretendo, com essas breves, sanar injustiça que creio ter cometido e só me resta, mais uma vez, apresentar minhas desculpas àquele cuja obra ajudou-me muito, desde o início, a participar de atividades ligadas ao carnaval.
            Assim, mais uma vez, rogo:
     Desculpe-me pela injustiça, mestre Julio Cesar Farias!